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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

"Só mais uma ideia duvidosa" por Sofia Mota, sobre a exposição no AmadoraBD 2015

Durante os preparativos do AmadoraBD 2015, quando me perguntaram qual seria a pessoa que eu gostaria de apontar para escrever o texto sobre a minha exposição, decidi optar por uma via diferente da usual. Haveria certamente um grupo de jornalistas meus conhecidos e outras pessoas ligadas à BD que estariam aptas para o trabalho. No entanto, acabei por convidar alguém que acompanha o meu percurso desde os primeiros esboços do primeiro argumento. Alguém com quem partilho a vida, que me conhece, a mim e ao que tenho feito, como ninguém. Fica o texto da Sofia Mota para o catálogo do festival, ainda por editar.


Só mais uma ideia duvidosa.


Começo por dizer que aceitar o convite para escrever este texto talvez tenha sido uma das decisões mais disparatadas que já tomei. Para quem procura uma leitura com alguma profundidade e conteúdo e, a bem dizer, qualquer interesse no que à banda desenhada diz respeito, o mais sensato será passar directamente para o texto seguinte.

Quando o André me abordou sobre o assunto, e tudo não passava de uma intenção, abstracta e distante, percebi a razão da escolha... "Alguém mais próximo do autor, neste caso a sua mulher, que não pertence ao círculo da BD e que pode partilhar algo mais pessoal, diferente do habitual". OK, achei que fazia sentido. Porque não?

Mas agora, em cima do acontecimento, sem saber bem o que escrever e com umas quantas folhas em branco por preencher, isto já não me parece tão boa ideia.

O que talvez até seja adequado. Ideias duvidosas, com o André, são umas atrás das outras.
Felizmente, algumas acabam por se transformar em algo bom.

O que nos leva a Hawk. A premissa para estas páginas foi um contratempo real que se passou com um amigo que, como o Vicente, se viu forçado a passar um fim-de-semana com um falcão que lhe irrompeu pela casa adentro.

Porém, à parte deste rastilho de inspiração, as personagens da história expõem algo de profundamente pessoal, familiar e autobiográfico. Experiências não somente contadas, mas sentidas ou vividas, na primeira pessoa. Mas provavelmente não é preciso viver com o André para perceber isso. Tal como em quase tudo o que escreve, ele aborda aqui algumas das suas próprias inquietações e consumições, vivendo-as através das suas personagens, e assim procurando um sentido para elas. 

Neste caso, através do desenho do Osvaldo Medina e cor da Inês Falcão Ferreira, leva-nos a acompanhar este Vicente, com todas as suas fobias paralisantes e ansiedade crónica. Explora a dor da perda e a solidão, as aflições da mudança. Põe-nos a pensar em como "o que faz a vida importante são pessoas e momentos que se vão perder para sempre". No fundo, uma história bem disposta.

Com o selo da Kingpin Books, e edição de Mário Freitas, Hawk tem um significado especial porque foi a primeira obra de maior fôlego a ser lançada em nome próprio.

Até lá, ao longo de anos de dedicação, assisti de perto a um crescendo de pequenos marcos e conquistas na sua busca pela oportunidade de poder contar histórias. Que assumem várias formas e feitios mas são sempre, sempre uma parte de quem ele é.

Obviamente, não sou uma académica de BD, nem tão pouco me atrevo a considerar-me uma fã. É que, ao acompanhar o André a encontros do "meio", já fui involuntariamente vista como tal e, ao que parece, isso significa ser abalroada por ininterrupta e, para mim, absolutamente incompreensível verborreia bedéfila. São sacríficios que se fazem por amor. Dizem.

Este meio da banda desenhada apaixonou-o desde cedo mas o percurso como argumentista começou a ganhar forma no último ano da faculdade, quando se viu com apenas duas disciplinas para fazer e, portanto, muito tempo livre; resultado da brilhante ideia de ter chumbado a uma única cadeira em todo o curso... que foi só a cadeira nuclear do 1º ano.

Dedicou-se então a escrever as suas primeiras amostras de argumento, enquanto dirigia o núcleo de banda desenhada da faculdade.  Julgo que mais ou menos por essa altura começaram também as nossas incursões pelo país, fazendo várias centenas de quilómetros para ver, a um canto mal iluminado, numa exposição deserta de uma qualquer cidade do interior, duas pranchas de argumento seu. Quiçá um primeiro e terceiro lugar num concurso com três participações. A verdade é que estas viagens serviam mais como pretexto para passarmos uns fins-de-semana diferentes, só os dois, conhecer novos recantos do país mas, ainda assim, fico satisfeita por poder testemunhar uma evolução até aos dias de hoje. Os eventos tornaram-se um pouco mais concorridos, algumas exposições foram já em nome próprio e, em vez de participar em concursos, começou a fazer livros.

No entretanto, os projectos foram-se sucedendo a um ritmo incessante. Desde a participação e co-edição em vários números da publicação Zona, ao desafio mensal como editor e argumentista de BD na revista Cais, à escrita de Volta, Tiras do Baralho, e o lançamento da Ave Rara com a série Living Will e agora Gentleman, entre outras tantas pequenas publicações e vários argumentos que não chegaram (ainda?) a ver a luz do dia, grande parte do seu tempo é consumido por BD, libertando-me para consecutivos serões de trash TV. Alguém tem de equilibrar a produtividade lá de casa.

Uma etapa determinante neste percurso foi a integração no The Lisbon Studio. Sem qualquer ocupação profissional fixa, decide passar os dias a "trabalhar", disse ele, junto de uma trupe de artistas, ilustradores e afins. Outra das suas ideias. Que, a bem da verdade, se reflectiu num argumentista de BD mais motivado e criterioso, inspirado diariamente pelos vários autores residentes, e restantes amizades que foi formando pelo meio.

Quem conhece o André, tanto pessoal como profissionalmente, sabe como ele consegue ser multifacetado, trocar de "chapéu" e reinventar-se, não se regendo por quaisquer falsas pretensões de coerência. Compreensivelmente, não há área da sua vida onde esta recusa de auto-limitações seja mais óbvia do que no seu percurso como argumentista que, digamos sem medo, acaba por roçar um pouco a esquizofrenia.
                                                   
De facto, até este ponto, acho que a sua única constante tem sido mesmo o esforço diário que dedica ao simples sonho de poder partilhar as suas histórias, de preferência em banda desenhada, com o máximo de pessoas interessadas. Fá-lo por gosto e opção, é certo, mas com uma disciplina e uma perserverança difíceis de encontrar e honestamente irritantes.

Se há uma fobia que o caracteriza é o medo de parar. A inércia causa-lhe urticária. Mesmo que às vezes possa não saber para onde, prefere continuar a andar. Ou a correr. O que, quando estamos perdidos em viagem, por exemplo, não é de todo a melhor ideia. Mas como autor, pelo menos, parece levá-lo sempre a qualquer lado, ainda que lá fique por pouco tempo.

Neste momento, pelo que sei, tem quatro novas histórias prestes a ser lançadas: Vil com Xico Santos (Kingpin Books), Tormenta com João Sequeira e Milagreiro com vários ilustradores (ambos pela Polvo), para além do novo número do seu Living Will, com Joana Afonso. Claro que, para além disto, e apesar de o ouvir constantemente a anunciar que tem de "reduzir" (como se estivesse a falar de droga), tem vários outros projectos em curso. Mas eu já nem tento estar a par de tudo o que vai naquela cabeça. Tentar seria provavelmente um esforço em vão.


No fundo, por mais que isso lhe custe tantas noites mal dormidas ou que volta e meia maldiga a sua mania de se meter em tudo, eu sei que de alguma forma ele há-de continuar a criar o seu caminho através das ideias, por vezes duvidosas, que ele transforma em histórias. Fazendo-o sempre nesta ambiguidade em que vive; algures entre o ímpeto de sentir que tem algo relevante para dizer e a constante insegurança que o faz duvidar se alguém quer ouvir.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Os "Mundos em Segunda Mão" de Zograf


Durante anos, estivesse a trabalhar numa agência de comunicação ou no The Lisbon Studio, fazia sempre duas viagens de carro, ao princípio e ao final do dia. Acabavam por ser uma espécie de exercício de meditação. Procurava colocar as ideias em ordem e algumas vezes posso dizer que esse ensaio se revelou proveitoso. No entanto, nos últimos tempos, uma mudança no percurso profissional fez com que desse mais jeito fazer essas mesmas viagens de comboio. E aí, é justo dizer-se, abriu-se um novo leque de possibilidades.

A leitura de banda desenhada tornou-se mais presente, mais intensa, parte do meu dia-a-dia. E um certo voyeurismo também, pois é comum levantar os olhos do livro por uns segundos e observar os edifícios, os carros, as pessoas que estão à janela ou passeiam à beira-rio. São pequenos momentos de cultura e pesquisa, que posso dizer que quase encontram a fusão perfeita nos dois volumes Mundos em Segunda Mão do autor de BD sérvio Aleksandar Zograf.

Apesar de já por cá andar há alguns anos (esteve presente no Salão Lisboa em 2003 e duas vezes no Festival da Amadora), só agora tomei contacto com parte da sua obra (shame on me!), e fiquei fã. Sou um curioso por natureza e tenho especial predilecção por transportar-me para realidades distantes da minha, sejam elas reais ou não. A verdade é que nestes livros, e através de episódios curtos, Zograf ilustra um passado histórico e pictórico que me interessa muitíssimo, seja a recordar episódios de guerra, os bombardeamentos na sua cidade natal, a apresentar os "tesouros" que invariavelmente descobre em feiras de rua ou a contar episódios de infância, passados no seu país, que me parece tão parecido e tão diferente do meu.

Zograf conhece o património da sua região e explora-o como quer. Descobre-o como bem entende, tomando-nos como cúmplices e parceiros de viagem. Sem seguir regras, sem se preocupar com estereótipos ou ideias pré-concebidas. Este é o seu universo e a sua mensagem, expostos aos nossos olhos de maneira livre e autêntica.

Onde quer que se viva, o mundo é um lugar estranho.

É uma pena que tantos não o vejam como tal.

quarta-feira, 26 de março de 2014

ZooXcape no programa Bandas da Rádio Zero


Bandas é um programa de rádio de Nuno Pereira de Sousa (a quem desde já agradeço sempre o apoio e a amabilidade) com formato de autor, emitido pela Rádio Zero aos sábados, entre as 20h00 e as 21h00, com repetição às terças-feiras, entre as 09:00 e as 10h00.

Na segunda edição, eu e a Carla Rodrigues falámos um pouco acerca da nossa experiência enquanto autores do ZooXcape, um dos primeiros projectos da app Parallel Planet.

Podem ouvir aqui.

domingo, 9 de março de 2014

ZooXcape na Parallel Planet


E agora algo completamente diferente...
A convite de um amigo, é com gosto que participo no pontapé de saída daquela que promete ser "uma nova maneira de contar histórias", de forma interactiva e geograficamente orientada, através das novas plataformas e do recurso à realidade aumentada.

A Parallel Planet está a dar os primeiros passos e julgo que vai dar que falar. A aplicação está já disponível na App Store e é gratuita portanto check it out! Para já, o utilizador pode escolher uma de duas actividades narrativas: Ladrão de Bicicletas, do copywriter Rui Simões, e ZooXcape, escrita por mim e desenhada pela Carla Rodrigues (claro que tinha que trazer a BD ao barulho...)


ZooXcape é uma história curta e divertida, dirigida a todas as idades. No papel do explorador Cid, temos de percorrer várias zonas da Baixa Lisboeta para recolher uma série de animais que estavam destinados ao Zoo e que escaparam. Mas para fazê-lo, precisamos de saber qualquer coisa de vida selvagem ou então ter alguma sorte. Seja como for, vale a pena experimentar!


Assim sendo, procurem a Parallel Planet na App Store, descarreguem, joguem e divirtam-se (a história do Rui tem ainda mais piada se vivida ao volante de uma bicicleta e a minha e da Carla pisca o olho aos bedéfilos). Depois, continuem a acompanhar as novidades da aplicação, porque acredito virem aí boas surpresas nos próximos tempos.

domingo, 1 de setembro de 2013

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Carta aberta ao Geraldes Lino


Geraldes Lino desenhado por João Sequeira


Este blog nunca serviu para escrever demasiado (aliás, está no próprio nome do mesmo que é suposto haver "menos conversa e mais BD"), mas há momentos em que sentimos que temos coisas para dizer e não é senão terapêutico e justo que o façamos com todas as palavras necessárias. Quem me conhece sabe que não me abstenho de falar dos meus sentimentos, não sou de esconder as emoções, e eu por achar que sempre o fiz demasiado tenho tentado refrear um pouco os ânimos nos últimos anos. Assim, há pessoas de quem gosto e que muito admiro que se calhar nunca chegarão a ouvir da minha parte tudo aquilo que gostaria de lhes confessar... É absurdo mas é assim e suspeito que não serei o único a sofrer do mesmo problema.

Desde que me conheço que gosto de contar histórias. Boas ou más cabe aos outros julgar mas é algo que faz parte da minha génese e que não me imagino a abandonar por mais voltas que dê a vida. Os textos ilustrados em sequência estiveram na base da minha formação como criativo e mesmo como ser pensante, o apreço pela banda desenhada é algo que hoje tenho o prazer de partilhar com muita gente entre amigos, companheiros de estúdio, colaboradores e outros com quem tenho conversas ocasionais. É paixão e é sangue. É meu.

Quem acompanha o panorama (detesto que lhe chamem "mundo") da BD nacional sabe perfeitamente quem é o Geraldes Lino, portanto dispensa apresentações. Quem não acompanha e está a ler este texto saiba apenas que ao longo de toda a sua vida personificou inteiramente as palavras que escrevi no parágrafo anterior: um percurso dedicado ao exercício, à divulgação e à projecção de uma das coisas que mais ama e que mais prazer lhe dá. Um amor à arte que é incondicional, como o de um pai ou de um irmão, que envolveu grandes sacrifícios e em que todos os desafios perfilados foram superados sem preguiças, sem olhar para trás, sem segundas intenções.

A quantidade de jovens autores que o Geraldes Lino apoiou e ajudou ao longo das décadas faz com que haja hoje uma legião de pessoas que lhe estão pelo menos tão gratas quanto eu. E isso é uma coisa maravilhosa de se conseguir, seja qual for o tempo da História em que se viva. É um bem grandioso que engrandece o indivíduo, maior do que qualquer homenagem ou condecoração que se possa oferecer. Quando ainda não havia internet era mais difícil para uma criança encontrar soluções de aprendizagem para a arte da sua eleição, para se instruir e para crescer. Quando se conhecia gente com os mesmos interesses era tudo mais fácil mas quando isso não ocorria às vezes a diferença estava na vontade abnegada de "ir à luta" ou no simples pormenor de se conhecer a pessoa certa. O Geraldes Lino foi a pessoa certa para muita gente. E não há nada no mundo que lhe pague isso.

Criou e organizou a Tertúlia de BD de Lisboa durante quase trinta anos. Um encontro mensal que frequentei durante muito tempo e que ainda frequento ocasionalmente. Em todos os certames apresentou e homenageou dezenas e dezenas de pessoas, sem nunca parar para jantar como os outros, sempre a saltar de mesa em mesa e a distribuir fanzines e textos acerca do tema que ali nos unia. Sempre com a mesma vontade e com o mesmo entusiasmo, daqueles que dão que pensar e que vão connosco para casa. Que servem de exemplo.

Agora, afastou-se da Tertúlia e tenciona afastar-se também gradualmente do resto, por motivos de saúde. Fala-se de uma homenagem e eu lá estarei seja onde ou quando for. Mas não há homenagem que não acabe em vazio porque todas têm um fim, nenhuma dura para sempre.
Numa nota pessoal, mais do que qualquer demonstração de afecto e respeito, do que este texto ou de qualquer outra coisa que possam dizer-lhe ou dedicar-lhe, o que realmente me emociona é a marca. A marca que ele deixou no meu sentido de tarefa e missão, de querer ser melhor e de tentar ajudar os outros, uma marca que me deu coragem e que ainda hoje motiva nos momentos menos bons. Não serei especial para ele mas ele é para mim.

Queria deixar este desabafo, porque a criação no Homem está sempre num tropel de emoções. Um abraço enorme, dos nossos, a alguém que tanto me deu, para que tenha ideia do que significa. Um agradecimento a quem assumiu a tarefa de continuar a organizar a Tertúlia de BD, para não deixar morrer algo com tanta alma e História.

Para que se perceba o que é ter pela arte um amor sem limites.
Para que nunca se deixe de ser curioso, independentemente das primaveras que se conte.
Ou simplesmente para que se saiba que fanzine é uma palavra masculina.

Não te afastes demasiado, meu querido amigo.
Ainda tens de vir fazer a melhor banda desenhada de sempre.

(esta só apanha quem conhecer a música).

Abraço e até sempre

André Oliveira

sexta-feira, 31 de maio de 2013